top of page

A Pré-História da Música

Atualizado: 25 de ago. de 2025

Caverna de CHAUVET, França
Caverna de CHAUVET, França

"A arte é uma força cuja finalidade deve desenvolver e apurar a alma humana.” - Vassily Kandinsky

As primeiras manifestações musicais remontam à pré-história, antecedendo a própria organização civilizatória da humanidade. Esse fato faz da arte dos sons um fascinante fenômeno da mente, um sopro invisível que, como veremos neste capítulo, pode ter influenciado decisivamente a formação da linguagem e, em termos mais amplos, do pensamento humano. Para refletirmos sobre isso, será necessário revisitar, ainda que brevemente, o surgimento do homem moderno e os vestígios musicais que dele restaram — instrumentos rudimentares e pinturas rupestres. Convém lembrar, porém, que a música da pré-história é uma música envolta em mistérios: não nos restam registros audíveis, apenas indícios, silhuetas interpretadas pelas diversas ciências que tentam decifrar a música desse período.

Em uma síntese contemporânea, a música pode ser entendida como uma espécie de poesia dos sons, nascida de uma ideia ou de um afeto humano que busca comunicar-se. Victor Hugo observou que a música expressa o que não pode ser dito em palavras, mas que tampouco pode permanecer em silêncio. Diante disso, torna-se uma tarefa extremamente complexa reconstruir como teria sido, de fato, a música na pré-história. As evidências mais antigas, anteriores a 4.000 a.C., sugerem que ela frequentemente se inspirava na imitação dos sons da natureza — de modo análogo ao que se observa nas pinturas rupestres. Antes, porém, de nos aprofundarmos nessa questão, faz-se necessário empreender uma breve viagem às origens do homem moderno.

Temporal and Geographical Distribution of Hominid Populations Redrawn from Stringer (2003)
Temporal and Geographical Distribution of Hominid Populations Redrawn from Stringer (2003)

Estudos arqueológicos, antropológicos, paleontológicos e genéticos apontam que, entre 6 e 7 milhões de anos atrás, surgiram na África duas espécies pertencentes ao início da evolução hominídea: o Sahelanthropus tchadensis, que apresentava características humanas e símias, e o Orrorin tugenensis, já bípedes. Seguiram-se a esses primeiros hominídeos os Ardipithecus (cerca de 4,3 milhões de anos atrás) e os Australopithecus.


Estima-se que há cerca de 2,5 milhões de anos tenha surgido o gênero Homo, com o Homo habilis, na África Oriental. Com ele, apareceram também as primeiras ferramentas de pedra, inaugurando o período Paleolítico. Quinhentos mil anos depois, surgem o Homo ergaster (ou Homem de Java) e o Homo erectus, os primeiros hominídeos a sair da África, alcançando a Ásia e a Europa. Esses dominaram o fogo, confeccionaram ferramentas mais complexas e desenvolveram estratégias de caça mais elaborada

Mais adiante, entre 300 mil e 29 mil anos atrás, viveram os Neandertais, hominídeos com alguma riqueza cultural e habilidade para a fala. Eles desenvolveram técnicas para a produção de ferramentas e foram, provavelmente, os primeiros a ritualizar funerais. Coexistindo com eles, mas sobrevivendo à sua extinção, o Homo sapiens evoluiu até se tornar o Homo sapiens sapiens, único sobrevivente do gênero Homo. Existem, porém, diferentes teorias sobre essa evolução: alguns defendem que o Homo sapiens descende diretamente do Homo erectus, enquanto outros, apoiados em estudos genéticos, sugerem que sua origem resultou do cruzamento de várias espécies do gênero Homo.

O homem moderno possui um cérebro altamente desenvolvido — fator que lhe permitiu criar e utilizar ferramentas elaboradas, alterar o ambiente e desenvolver formas complexas de contrato social. A consciência de si mesmo e a racionalidade nos diferenciam dos demais animais.


A pré-história está dividida em três grandes períodos: Paleolítico, Mesolítico e Neolítico.


Período Paleolítico


A arte paleolítica — também chamada de Idade da Pedra Lascada — refere-se à produção mais antiga de que se tem conhecimento. Ela abrange o período de dois milhões de anos atrás até cerca de 8.000 a.C.


Para uma compreensão mais próxima das primeiras criações artísticas, é essencial relacionar o homem ao seu ambiente. A natureza influenciava de forma central suas decisões e ações. As migrações, por exemplo, eram condicionadas por fatores naturais. Logo, os temas da arte paleolítica refletiam os elementos cotidianos mais básicos.


É provável que os hominídeos mais primitivos se preocupassem meramente com a sobrevivência, vivendo como os demais animais. Já os Homo sapiens demonstram habilidades artísticas. Esse argumento é corroborado por estudos que apontam vestígios artísticos datados de cerca de 40.000 a.C.


Flauta encontrada próximo dos Alpes Suábios, no sul da Alemanhã Pode ter cerca de 30.000
Flauta encontrada próximo dos Alpes Suábios, no sul da Alemanhã Pode ter cerca de 30.000

Entre 40.000 a.C. e 8.000 a.C., encontram-se os passos mais significativos da produção artística pré-histórica. A arte rupestre revela que o homem adquiriu alguma consciência de si, da morte e do que poderia ser a natureza ao seu redor. Embora a motivação artística desse período seja objeto de especulação, pode-se afirmar que havia a necessidade de expressar ideias e visões que iam além da realidade imediata. Muitos achados em cavernas, localizados em áreas de difícil acesso, sugerem que a arte tinha propósitos rituais ou místicos, e que o artista detinha, possivelmente, um papel religioso.


Quanto à música, os hominídeos paleolíticos provavelmente utilizavam gritos para se comunicar e imitavam sons da natureza em seu cotidiano. Esse comportamento pode ter contribuído para o desenvolvimento de códigos mais complexos. Contudo, não é possível afirmar que existia “música” como a entendemos hoje. Os primeiros Homo, com suas funções cognitivas mais desenvolvidas, demonstram evidências de comportamento musical. A partir dos instrumentos encontrados, é possível supor que o homem aprendeu a utilizar sinais sonoros como forma de expressar sua imaginação. Isso pode ter se iniciado com formas rudimentares de canto, posteriormente incorporadas a instrumentos de percussão e sopro.


Independentemente das razões que motivaram a arte — sejam elas ritualísticas ou ligadas ao entretenimento —, parece correto afirmar que a primeira tentativa humana de se diferenciar da natureza se manifesta na arte.


Período Mesolítico


Escultura de Lepenski Vir.
Escultura de Lepenski Vir.

O termo Mesolítico designa o período intermediário entre o Paleolítico e o Neolítico (10.000 a.C. a 5.000 a.C.).


O homem ainda era nômade, mas começava a fixar-se de forma eventual, conforme o clima e as fontes de alimento. Nesse período podem ter surgido os primeiros acampamentos e formas rudimentares de armazenamento de alimentos. A arte passa a apresentar maior racionalidade, misturando elementos geométricos e abstratos. O homem torna-se o centro das representações, substituindo gradualmente os animais que desapareceram após a última era glacial. As representações incluem lutas entre grupos, batalhas de arqueiros e rituais xamânicos.


Essa centralidade do ser humano nas manifestações artísticas pode indicar também mudanças na música, que talvez deixasse de ser apenas ritualística para assumir funções mais documentais, ligadas à preservação da memória coletiva.


Período Neolítico

Escultura Rupestre intitulada Vênus de Willendorf
Escultura Rupestre intitulada Vênus de Willendorf

Conhecido como a “Idade da Pedra Polida”, o Neolítico estende-se de 8.000 a.C. a 4.000 a.C. É nesse período que surge a agricultura, fator decisivo para o desenvolvimento da civilização. O homem deixa de ser nômade e passa a viver em aldeias próximas aos grandes rios. Estima-se que a população humana tenha triplicado após a última era glacial.


Nesse contexto, desenvolvem-se técnicas de reprodução de plantas, domesticação de animais, estocagem de alimentos e os primeiros sistemas cooperativos e políticos. Também se aperfeiçoam as ferramentas, surgem a cerâmica, a tecelagem e, posteriormente, a invenção da roda.


Os achados arqueológicos indicam que a produção artística do período estava ligada à religião. Observa-se o culto à figura feminina e à fertilidade, além de representações mais geométricas e menos abstratas. É provável que nesse período tenham ocorrido as primeiras especulações racionais sobre a música. Os instrumentos encontrados — idiofones, cordofones e aerofones — mostram maior controle e diversidade, sugerindo a presença de ritmos e melodias mais complexos.


Conclusão


A pré-história revela o esforço humano em distinguir-se da natureza. A análise da evolução do pensamento evidencia uma transição da mística naturalista para a veneração de divindades, movimento que demonstra a busca por significados que iam além da sobrevivência e da vida instintiva comum aos demais animais. Nesse percurso, a música emerge como forma de expressão simbólica e registro da mentalidade coletiva, assumindo função análoga à da pintura rupestre.


Embora não possamos acessar diretamente a música pré-histórica, sua existência pode ser inferida a partir da própria emergência da linguagem e da capacidade humana de atribuir sentidos aos sons. A imitação, a organização rítmica e a associação de símbolos sonoros sugerem que a música esteve intimamente ligada ao desenvolvimento da linguagem e, em termos mais amplos, à formação do pensamento. Sob essa perspectiva, a música não apenas acompanhou, mas provavelmente exerceu influência determinante sobre a comunicação verbal.


Por partilharmos uma origem comum, é possível concluir que todos os seres humanos mantêm vínculos musicais universais. A musicalidade configura-se como uma disposição inata, manifesta no cotidiano por meio de ritmos, entonações e melodias presentes na fala. Desse modo, a pré-história deve ser reconhecida como a etapa inaugural da história musical da humanidade, frequentemente negligenciada, mas essencial para compreender a profunda relação entre música, linguagem e pensamento.


Referências Bibliográficas

  • CLOTTES, Jean. What Is Paleolithic Art?: Cave Paintings and the Dawn of Human Creativity. Chicago: University of Chicago Press, 2016.

  • CLOTTES, Jean; LEWIS-WILLIAMS, David. The Shamans of Prehistory: Trance and Magic in the Painted Caves. Nova York: Harry N. Abrams, 1998.

  • LEWIS-WILLIAMS, David. The Mind in the Cave: Consciousness and the Origins of Art. Londres: Thames and Hudson, 2002.

  • BLACKING, John. How Musical Is Man? Seattle: University of Washington Press, 1973.

  • MITHEN, Steven. The Singing Neanderthals: The Origins of Music, Language, Mind and Body. Londres: Weidenfeld & Nicholson, 2005.




Comentários


©2026 Todos os direitos reservados a Eduardo Luiz de Castro Hessen, CNPJ 43.341.838/0001-51

bottom of page