A Pré-História da Música
- Edu Hessen
- 22 de nov. de 2021
- 6 min de leitura
Atualizado: 25 de ago. de 2025

"A arte é uma força cuja finalidade deve desenvolver e apurar a alma humana.” - Vassily Kandinsky
As primeiras manifestações musicais remontam à pré-história, antecedendo a própria organização civilizatória da humanidade. Esse fato faz da arte dos sons um fascinante fenômeno da mente, um sopro invisível que, como veremos neste capítulo, pode ter influenciado decisivamente a formação da linguagem e, em termos mais amplos, do pensamento humano. Para refletirmos sobre isso, será necessário revisitar, ainda que brevemente, o surgimento do homem moderno e os vestígios musicais que dele restaram — instrumentos rudimentares e pinturas rupestres. Convém lembrar, porém, que a música da pré-história é uma música envolta em mistérios: não nos restam registros audíveis, apenas indícios, silhuetas interpretadas pelas diversas ciências que tentam decifrar a música desse período.
Em uma síntese contemporânea, a música pode ser entendida como uma espécie de poesia dos sons, nascida de uma ideia ou de um afeto humano que busca comunicar-se. Victor Hugo observou que a música expressa o que não pode ser dito em palavras, mas que tampouco pode permanecer em silêncio. Diante disso, torna-se uma tarefa extremamente complexa reconstruir como teria sido, de fato, a música na pré-história. As evidências mais antigas, anteriores a 4.000 a.C., sugerem que ela frequentemente se inspirava na imitação dos sons da natureza — de modo análogo ao que se observa nas pinturas rupestres. Antes, porém, de nos aprofundarmos nessa questão, faz-se necessário empreender uma breve viagem às origens do homem moderno.

Estudos arqueológicos, antropológicos, paleontológicos e genéticos apontam que, entre 6 e 7 milhões de anos atrás, surgiram na África duas espécies pertencentes ao início da evolução hominídea: o Sahelanthropus tchadensis, que apresentava características humanas e símias, e o Orrorin tugenensis, já bípedes. Seguiram-se a esses primeiros hominídeos os Ardipithecus (cerca de 4,3 milhões de anos atrás) e os Australopithecus.
Estima-se que há cerca de 2,5 milhões de anos tenha surgido o gênero Homo, com o Homo habilis, na África Oriental. Com ele, apareceram também as primeiras ferramentas de pedra, inaugurando o período Paleolítico. Quinhentos mil anos depois, surgem o Homo ergaster (ou Homem de Java) e o Homo erectus, os primeiros hominídeos a sair da África, alcançando a Ásia e a Europa. Esses dominaram o fogo, confeccionaram ferramentas mais complexas e desenvolveram estratégias de caça mais elaborada
Mais adiante, entre 300 mil e 29 mil anos atrás, viveram os Neandertais, hominídeos com alguma riqueza cultural e habilidade para a fala. Eles desenvolveram técnicas para a produção de ferramentas e foram, provavelmente, os primeiros a ritualizar funerais. Coexistindo com eles, mas sobrevivendo à sua extinção, o Homo sapiens evoluiu até se tornar o Homo sapiens sapiens, único sobrevivente do gênero Homo. Existem, porém, diferentes teorias sobre essa evolução: alguns defendem que o Homo sapiens descende diretamente do Homo erectus, enquanto outros, apoiados em estudos genéticos, sugerem que sua origem resultou do cruzamento de várias espécies do gênero Homo.
O homem moderno possui um cérebro altamente desenvolvido — fator que lhe permitiu criar e utilizar ferramentas elaboradas, alterar o ambiente e desenvolver formas complexas de contrato social. A consciência de si mesmo e a racionalidade nos diferenciam dos demais animais.
A pré-história está dividida em três grandes períodos: Paleolítico, Mesolítico e Neolítico.
Período Paleolítico
A arte paleolítica — também chamada de Idade da Pedra Lascada — refere-se à produção mais antiga de que se tem conhecimento. Ela abrange o período de dois milhões de anos atrás até cerca de 8.000 a.C.
Para uma compreensão mais próxima das primeiras criações artísticas, é essencial relacionar o homem ao seu ambiente. A natureza influenciava de forma central suas decisões e ações. As migrações, por exemplo, eram condicionadas por fatores naturais. Logo, os temas da arte paleolítica refletiam os elementos cotidianos mais básicos.
É provável que os hominídeos mais primitivos se preocupassem meramente com a sobrevivência, vivendo como os demais animais. Já os Homo sapiens demonstram habilidades artísticas. Esse argumento é corroborado por estudos que apontam vestígios artísticos datados de cerca de 40.000 a.C.

Entre 40.000 a.C. e 8.000 a.C., encontram-se os passos mais significativos da produção artística pré-histórica. A arte rupestre revela que o homem adquiriu alguma consciência de si, da morte e do que poderia ser a natureza ao seu redor. Embora a motivação artística desse período seja objeto de especulação, pode-se afirmar que havia a necessidade de expressar ideias e visões que iam além da realidade imediata. Muitos achados em cavernas, localizados em áreas de difícil acesso, sugerem que a arte tinha propósitos rituais ou místicos, e que o artista detinha, possivelmente, um papel religioso.
Quanto à música, os hominídeos paleolíticos provavelmente utilizavam gritos para se comunicar e imitavam sons da natureza em seu cotidiano. Esse comportamento pode ter contribuído para o desenvolvimento de códigos mais complexos. Contudo, não é possível afirmar que existia “música” como a entendemos hoje. Os primeiros Homo, com suas funções cognitivas mais desenvolvidas, demonstram evidências de comportamento musical. A partir dos instrumentos encontrados, é possível supor que o homem aprendeu a utilizar sinais sonoros como forma de expressar sua imaginação. Isso pode ter se iniciado com formas rudimentares de canto, posteriormente incorporadas a instrumentos de percussão e sopro.
Independentemente das razões que motivaram a arte — sejam elas ritualísticas ou ligadas ao entretenimento —, parece correto afirmar que a primeira tentativa humana de se diferenciar da natureza se manifesta na arte.
Período Mesolítico

O termo Mesolítico designa o período intermediário entre o Paleolítico e o Neolítico (10.000 a.C. a 5.000 a.C.).
O homem ainda era nômade, mas começava a fixar-se de forma eventual, conforme o clima e as fontes de alimento. Nesse período podem ter surgido os primeiros acampamentos e formas rudimentares de armazenamento de alimentos. A arte passa a apresentar maior racionalidade, misturando elementos geométricos e abstratos. O homem torna-se o centro das representações, substituindo gradualmente os animais que desapareceram após a última era glacial. As representações incluem lutas entre grupos, batalhas de arqueiros e rituais xamânicos.
Essa centralidade do ser humano nas manifestações artísticas pode indicar também mudanças na música, que talvez deixasse de ser apenas ritualística para assumir funções mais documentais, ligadas à preservação da memória coletiva.
Período Neolítico

Conhecido como a “Idade da Pedra Polida”, o Neolítico estende-se de 8.000 a.C. a 4.000 a.C. É nesse período que surge a agricultura, fator decisivo para o desenvolvimento da civilização. O homem deixa de ser nômade e passa a viver em aldeias próximas aos grandes rios. Estima-se que a população humana tenha triplicado após a última era glacial.
Nesse contexto, desenvolvem-se técnicas de reprodução de plantas, domesticação de animais, estocagem de alimentos e os primeiros sistemas cooperativos e políticos. Também se aperfeiçoam as ferramentas, surgem a cerâmica, a tecelagem e, posteriormente, a invenção da roda.
Os achados arqueológicos indicam que a produção artística do período estava ligada à religião. Observa-se o culto à figura feminina e à fertilidade, além de representações mais geométricas e menos abstratas. É provável que nesse período tenham ocorrido as primeiras especulações racionais sobre a música. Os instrumentos encontrados — idiofones, cordofones e aerofones — mostram maior controle e diversidade, sugerindo a presença de ritmos e melodias mais complexos.
Conclusão
A pré-história revela o esforço humano em distinguir-se da natureza. A análise da evolução do pensamento evidencia uma transição da mística naturalista para a veneração de divindades, movimento que demonstra a busca por significados que iam além da sobrevivência e da vida instintiva comum aos demais animais. Nesse percurso, a música emerge como forma de expressão simbólica e registro da mentalidade coletiva, assumindo função análoga à da pintura rupestre.
Embora não possamos acessar diretamente a música pré-histórica, sua existência pode ser inferida a partir da própria emergência da linguagem e da capacidade humana de atribuir sentidos aos sons. A imitação, a organização rítmica e a associação de símbolos sonoros sugerem que a música esteve intimamente ligada ao desenvolvimento da linguagem e, em termos mais amplos, à formação do pensamento. Sob essa perspectiva, a música não apenas acompanhou, mas provavelmente exerceu influência determinante sobre a comunicação verbal.
Por partilharmos uma origem comum, é possível concluir que todos os seres humanos mantêm vínculos musicais universais. A musicalidade configura-se como uma disposição inata, manifesta no cotidiano por meio de ritmos, entonações e melodias presentes na fala. Desse modo, a pré-história deve ser reconhecida como a etapa inaugural da história musical da humanidade, frequentemente negligenciada, mas essencial para compreender a profunda relação entre música, linguagem e pensamento.
Referências Bibliográficas
CLOTTES, Jean. What Is Paleolithic Art?: Cave Paintings and the Dawn of Human Creativity. Chicago: University of Chicago Press, 2016.
CLOTTES, Jean; LEWIS-WILLIAMS, David. The Shamans of Prehistory: Trance and Magic in the Painted Caves. Nova York: Harry N. Abrams, 1998.
LEWIS-WILLIAMS, David. The Mind in the Cave: Consciousness and the Origins of Art. Londres: Thames and Hudson, 2002.
BLACKING, John. How Musical Is Man? Seattle: University of Washington Press, 1973.
MITHEN, Steven. The Singing Neanderthals: The Origins of Music, Language, Mind and Body. Londres: Weidenfeld & Nicholson, 2005.
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