A Música Na Antiguidade
- Edu Hessen
- 27 de ago. de 2025
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“A arte é uma realidade convencionalmente aceita, na qual, graças à ilusão artística, os símbolos e os substitutos são capazes de provocar emoções reais. Assim, a arte constitui um meio caminho entre a realidade que frustra os desejos e o mundo dos desejos realizados da imaginação – uma região em que, por assim dizer, os esforços de onipotência do homem primitivo ainda se acha em pleno vigor.” - Sigmund Freud
A nossa viagem pela Antiguidade inicia-se a partir das descobertas arqueológicas em regiões onde floresceram as primeiras civilizações: Ásia Central, Vale do Jordão, Mesopotâmia, Índia, Egito e China. Embora a diversidade cultural desses povos seja vasta, nossa análise se concentrará no que é possível depreender dos registros materiais e iconográficos. Em outras palavras, a música antiga — salvo raríssimas exceções — só pode ser reconstruída por indícios: documentos fragmentados, instrumentos preservados, notações musicais rudimentares e, sobretudo, o legado reflexivo dos gregos que pensaram sobre a natureza da música e sua função social. Ao fim do capítulo, defenderemos que esses vestígios permitem entrever algo decisivo: a música não apenas acompanhou, mas pode ter moldado significativamente o pensamento humano.

A Mesopotâmia foi uma das regiões mais populosas da Antiguidade. O termo, de origem grega, significa “entre rios” — referência aos rios Tigre e ao Eufrates, onde hoje se situam o Iraque, parte da Turquia e da Síria. Ali floresceram diversas culturas a partir de 4.000 a.C., entre elas os sumérios, que desenvolveram a primeira forma de escrita pictográfica: a cuneiforme. Preciosas tábuas de argila chegaram até nós, testemunhando não apenas a organização política e religiosa, mas também reflexões musicais. Algumas delas, datadas entre os séculos XVIII e XV a.C., descrevem sistemas de afinação para a lira de nove cordas, sugerindo a existência de escalas além da pentatônica, talvez até semelhantes à nossa escala diatônica. Além disso, foram encontrados instrumentos como flautas, liras de cinco a onze cordas, alaúdes de braço longo e harpas variadas.

O ambiente cultural mesopotâmico sofreu profundas transformações com os diversos domínios de um povo sobre o outro. Por volta de 2.316 a.C., os acadianos conquistaram as cidades sumérias, e esse choque de culturas trouxe detalhamento estético às artes visuais e, possivelmente, também à música. Séculos depois, os babilônios, sob o governo de Hamurabi, herdaram e transformaram a tradição sumério-acadiana, embora poucos registros musicais tenham sobrevivido. Mais tarde, cassitas e assírios dominaram a região, absorvendo e renovando práticas culturais já estabelecidas. Essa dinâmica de guerras, fusões e ressignificações demonstra que a música, assim como a língua, não é apenas expressão de um povo, mas também resultado de trocas e conflitos históricos.

Já no Egito Antigo, a música tinha papel central na religião e na vida cotidiana. Pinturas e esculturas mostram harpas, flautas, sistros¹ e tambores usados em rituais nos templos, nas procissões e em festas populares. Os sacerdotes atribuíam aos sons a capacidade de estabelecer ligação com o divino, enquanto no dia a dia a música acompanhava o trabalho e a dança.
Na Grécia, a música adquiriu status filosófico e científico sem paralelos. Pitágoras investigou matematicamente as relações entre som e número; Platão e Aristóteles refletiram sobre o poder ético da música, considerando-a capaz de moldar caráteres. Ligada intimamente à poesia e ao teatro, era executada em instrumentos como a lira, a cítara e o aulos². Para os gregos, a música não era mero ornamento: constituía parte essencial da educação, da cidadania e da medicina. Falaremos um pouco mais disso à frente.

Os romanos, herdeiros e adaptadores da cultura grega, utilizaram a música com finalidades práticas e políticas. Ela estava presente em cerimônias públicas, nas arenas e no exército, onde os instrumentos de sopro, como cornos e trompas, eram fundamentais para transmitir ordens nas batalhas.

Na Índia, os Vedas já registravam práticas musicais associadas à espiritualidade. O sistema de ragas — modos melódicos carregados de simbolismo — reflete uma concepção de música como caminho de elevação transcendental da mente.
Na China, a música foi organizada como reflexo da ordem universal. Os sistemas pentatônicos eram associados ao equilíbrio entre os elementos da natureza e ao bom governo. A filosofia confucionista via a música como instrumento de moralidade e estabilidade social.
Os hebreus, por sua vez, nos legaram uma das tradições musicais mais influentes do mundo ocidental, preservada nos textos bíblicos. Harpas, címbalos³ e trombetas aparecem nos Salmos, evidenciando o papel da música no culto e na guerra.
Ao longo da Antiguidade, a música não se restringiu a uma arte ornamental: ela atravessou religião, política, festividades, guerra e filosofia, assumindo-se como linguagem social e expressão de um aspecto humano transcendental. Tal como a fala, esteve em permanente processo de ressignificação, moldada pelos encontros e choques entre povos, pelos registros escritos e pelas práticas ritualísticas que marcavam cada cultura. Mais que acompanhar a formação do pensamento humano, a música foi parte ativa de sua construção, um meio de articular memória e identidade coletiva, de disciplinar emoções e de simbolizar o vínculo entre indivíduo e comunidade. Nesse sentido, compreender a música antiga é também compreender as sociedades que a produziram, pois seus sons ecoavam tanto na vida cotidiana quanto na ordem simbólica que sustentava sua visão de mundo.

Os gregos perceberam a profundidade da música, pois a tratavam muito mais que a arte dos sons: de certa forma ela podia se percebida como uma teoria do cosmos e da disciplina moral. A mousiké, entendida como síntese de poesia, canto, ritmo e dança, atravessava educação e política. A música podia moldar tanto o caráter individual quanto a ordem da pólis. Pitágoras via nos elementos musicais um pedaço do universo, uma proporção que revelava a harmonia do ser e indicava que viver bem era, em essência, viver afinado musicalmente. A doutrina do ethos reforçou essa visão, afirmando que escalas e ritmos não eram neutros: formavam disposições, cultivavam virtudes ou incitavam paixões. Platão levou essa ideia às últimas consequências, tratando a música como ferramenta pedagógica para alma e propondo restrições estéticas em nome da estabilidade cívica, pois uma música desordenada poderia corromper não só o indivíduo, mas a sociedade inteira. Aristóteles, sem negar a dimensão política da música, enfatizou também que ela é uma experiência sensível e terapêutica. Que a forma de imitação inerente na arte dos sons pode organizar as emoções, proporcionar uma catarse que purifica as paixões além de gerar educação que busca equilíbrio. Aristóxeno, contrapondo-se ao dogmatismo numérico, destacou a centralidade da percepção auditiva, sugerindo que ética e estética não podem se desligar da experiência concreta.

Num contexto geral podemos entender a Antiguidade como um período no qual sobressalta o esforço humano em organizar o mundo e dar-lhe inteligibilidade. Se na Pré-História a música era um gesto simbólico de aproximação com a natureza, agora ela se torna instrumento de ordem, de disciplina e de representação do sagrado e do social. Isto é, a análise dos elementos arqueológicos antigos evidencia uma transição do uso espontâneo e mágico da música para sistemas cada vez mais conscientes de construção e afinação dos instrumentos, do temperamento das escalas, bem como para reflexões filosóficas sobre seus efeitos. É nesse contexto que a música começa a ser escrita, discutida e teorizada, adquirindo autonomia como campo do saber.
Embora nos faltem os sons originais dessas civilizações, é possível abstrair que a música, ao lado da linguagem verbal, consolidou-se como uma das principais formas de expressão e organização do pensamento humano. Se durante a Pré-História vemos a gênese da musicalidade, a Antiguidade revela a sua formalização. Deste modo, podemos concluir que a música existe também como ciência além de arte.
Sob essa conclusão, a Antiguidade não representa apenas uma continuidade, mas uma fase de maturação da música durante a história da vida humana no orbe terrestre. É o momento que vemos o instinto simbólico deixando a crisálida e sendo compartilhado por toda a humanidade, ela passa a configurar-se como linguagem culturalmente construída, capaz de atravessar povos e tempos, deixando marcas profundas na estrutura da civilização.
1 - O sistro é um instrumento de percussão que produz um som achocalhado.
2 - Um aulos ou tíbia ( latim ) era um instrumento de sopro da Grécia antiga , frequentemente retratado na arte e também atestado pela arqueologia.
3 - Címbalos refere-se tanto a instrumentos de percussão de metal, que são dois discos batidos um contra o outro, como a um instrumento de cordas percutidas semelhante a um salto grande, dando origem ao cravo. O plural "címbalos" é mais comum e refere-se aos pratos de metal, como os usados na Bíblia e em práticas de música moderna, ou aos instrumentos de cordas antigos.
Referências Bibliográficas
SACHS, Curt. História da Música no Ocidente. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
SACHS, Curt. The History of Musical Instruments. New York: W. W. Norton, 1940.
WEST, M. L. Ancient Greek Music. Oxford: Clarendon Press, 1992.
Links
O Epitáfio de Seikilos é um artefato grego da Antiguidade, encontrado em um túmulo erguido por Seikilos em memória de sua esposa. Trata-se de uma das mais antigas composições conhecidas registradas em notação musical, preservando não apenas o texto poético, mas também a melodia que o acompanha.



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