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A Música Na Antiguidade

Reconstituição da Acrópole e do Areópago de Atenas - Leo von Klenze, 1846.
Reconstituição da Acrópole e do Areópago de Atenas - Leo von Klenze, 1846.
A arte é uma realidade convencionalmente aceita, na qual, graças à ilusão artística, os símbolos e os substitutos são capazes de provocar emoções reais. Assim, a arte constitui um meio caminho entre a realidade que frustra os desejos e o mundo dos desejos realizados da imaginação – uma região em que, por assim dizer, os esforços de onipotência do homem primitivo ainda se acha em pleno vigor.” - Sigmund Freud

A nossa viagem pela Antiguidade inicia-se a partir das descobertas arqueológicas em regiões onde floresceram as primeiras civilizações: Ásia Central, Vale do Jordão, Mesopotâmia, Índia, Egito e China. Embora a diversidade cultural desses povos seja vasta, nossa análise se concentrará no que é possível depreender dos registros materiais e iconográficos. Em outras palavras, a música antiga — salvo raríssimas exceções — só pode ser reconstruída por indícios: documentos fragmentados, instrumentos preservados, notações musicais rudimentares e, sobretudo, o legado reflexivo dos gregos que pensaram sobre a natureza da música e sua função social. Ao fim do capítulo, defenderemos que esses vestígios permitem entrever algo decisivo: a música não apenas acompanhou, mas pode ter moldado significativamente o pensamento humano.


O zigurate de Ur Nammu, por volta do século XXI a.C. Iraque.
O zigurate de Ur Nammu, por volta do século XXI a.C. Iraque.

A Mesopotâmia foi uma das regiões mais populosas da Antiguidade. O termo, de origem grega, significa “entre rios” — referência aos rios Tigre e ao Eufrates, onde hoje se situam o Iraque, parte da Turquia e da Síria. Ali floresceram diversas culturas a partir de 4.000 a.C., entre elas os sumérios, que desenvolveram a primeira forma de escrita pictográfica: a cuneiforme. Preciosas tábuas de argila chegaram até nós, testemunhando não apenas a organização política e religiosa, mas também reflexões musicais. Algumas delas, datadas entre os séculos XVIII e XV a.C., descrevem sistemas de afinação para a lira de nove cordas, sugerindo a existência de escalas além da pentatônica, talvez até semelhantes à nossa escala diatônica. Além disso, foram encontrados instrumentos como flautas, liras de cinco a onze cordas, alaúdes de braço longo e harpas variadas.


Placa de Zimri-Lim, rei de Mari (escrita cuneiforme). Encontrada sob a fundação de uma casa de gelo em Terqa. Barro cozido, ca. 1780 AC. (Zimrilim, reinado de 1779 a.C - 1757 a.C.)
Placa de Zimri-Lim, rei de Mari (escrita cuneiforme). Encontrada sob a fundação de uma casa de gelo em Terqa. Barro cozido, ca. 1780 AC. (Zimrilim, reinado de 1779 a.C - 1757 a.C.)

O ambiente cultural mesopotâmico sofreu profundas transformações com os diversos domínios de um povo sobre o outro. Por volta de 2.316 a.C., os acadianos conquistaram as cidades sumérias, e esse choque de culturas trouxe detalhamento estético às artes visuais e, possivelmente, também à música. Séculos depois, os babilônios, sob o governo de Hamurabi, herdaram e transformaram a tradição sumério-acadiana, embora poucos registros musicais tenham sobrevivido. Mais tarde, cassitas e assírios dominaram a região, absorvendo e renovando práticas culturais já estabelecidas. Essa dinâmica de guerras, fusões e ressignificações demonstra que a música, assim como a língua, não é apenas expressão de um povo, mas também resultado de trocas e conflitos históricos.


Músicos de Amon, Tumba de Nakht. 18ª Dinastia, Tebas Ocidental.
Músicos de Amon, Tumba de Nakht. 18ª Dinastia, Tebas Ocidental.

Já no Egito Antigo, a música tinha papel central na religião e na vida cotidiana. Pinturas e esculturas mostram harpas, flautas, sistros¹ e tambores usados em rituais nos templos, nas procissões e em festas populares. Os sacerdotes atribuíam aos sons a capacidade de estabelecer ligação com o divino, enquanto no dia a dia a música acompanhava o trabalho e a dança.

Na Grécia, a música adquiriu status filosófico e científico sem paralelos. Pitágoras investigou matematicamente as relações entre som e número; Platão e Aristóteles refletiram sobre o poder ético da música, considerando-a capaz de moldar caráteres. Ligada intimamente à poesia e ao teatro, era executada em instrumentos como a lira, a cítara e o aulos². Para os gregos, a música não era mero ornamento: constituía parte essencial da educação, da cidadania e da medicina. Falaremos um pouco mais disso à frente.

Afresco de Boscoreale mostrando uma matrona a tocar cítara.
Afresco de Boscoreale mostrando uma matrona a tocar cítara.

Os romanos, herdeiros e adaptadores da cultura grega, utilizaram a música com finalidades práticas e políticas. Ela estava presente em cerimônias públicas, nas arenas e no exército, onde os instrumentos de sopro, como cornos e trompas, eram fundamentais para transmitir ordens nas batalhas.


Na Índia, os Vedas já registravam práticas musicais associadas à espiritualidade. O sistema de ragas — modos melódicos carregados de simbolismo — reflete uma concepção de música como caminho de elevação transcendental da mente.


Na China, a música foi organizada como reflexo da ordem universal. Os sistemas pentatônicos eram associados ao equilíbrio entre os elementos da natureza e ao bom governo. A filosofia confucionista via a música como instrumento de moralidade e estabilidade social.


Os hebreus, por sua vez, nos legaram uma das tradições musicais mais influentes do mundo ocidental, preservada nos textos bíblicos. Harpas, címbalos³ e trombetas aparecem nos Salmos, evidenciando o papel da música no culto e na guerra.


Ao longo da Antiguidade, a música não se restringiu a uma arte ornamental: ela atravessou religião, política, festividades, guerra e filosofia, assumindo-se como linguagem social e expressão de um aspecto humano transcendental. Tal como a fala, esteve em permanente processo de ressignificação, moldada pelos encontros e choques entre povos, pelos registros escritos e pelas práticas ritualísticas que marcavam cada cultura. Mais que acompanhar a formação do pensamento humano, a música foi parte ativa de sua construção, um meio de articular memória e identidade coletiva, de disciplinar emoções e de simbolizar o vínculo entre indivíduo e comunidade. Nesse sentido, compreender a música antiga é também compreender as sociedades que a produziram, pois seus sons ecoavam tanto na vida cotidiana quanto na ordem simbólica que sustentava sua visão de mundo.


Cena de banquete ao som de música de aulo. Cerâmica, c. 450 a.C.
Cena de banquete ao som de música de aulo. Cerâmica, c. 450 a.C.

Os gregos perceberam a profundidade da música, pois a tratavam muito mais que a arte dos sons: de certa forma ela podia se percebida como uma teoria do cosmos e da disciplina moral. A mousiké, entendida como síntese de poesia, canto, ritmo e dança, atravessava educação e política. A música podia moldar tanto o caráter individual quanto a ordem da pólis. Pitágoras via nos elementos musicais um pedaço do universo, uma proporção que revelava a harmonia do ser e indicava que viver bem era, em essência, viver afinado musicalmente. A doutrina do ethos reforçou essa visão, afirmando que escalas e ritmos não eram neutros: formavam disposições, cultivavam virtudes ou incitavam paixões. Platão levou essa ideia às últimas consequências, tratando a música como ferramenta pedagógica para alma e propondo restrições estéticas em nome da estabilidade cívica, pois uma música desordenada poderia corromper não só o indivíduo, mas a sociedade inteira. Aristóteles, sem negar a dimensão política da música, enfatizou também que ela é uma experiência sensível e terapêutica. Que a forma de imitação inerente na arte dos sons pode organizar as emoções, proporcionar uma catarse que purifica as paixões além de gerar educação que busca equilíbrio. Aristóxeno, contrapondo-se ao dogmatismo numérico, destacou a centralidade da percepção auditiva, sugerindo que ética e estética não podem se desligar da experiência concreta.


Lira com cabeça de touro em madeira, decorada com ouro, prata, lápis lazúli e madrepérola. Ur, 2550-2400 a.C. Museu de Arqueologia e Antropologia da Filadélfia.Lira com cabeça de touro em madeira, decorada com ouro, prata, lápis lazúli e madrepérola. Ur, 2550-2400 a.C. Museu de Arqueologia e Antropologia da Filadélfia.
Lira com cabeça de touro em madeira, decorada com ouro, prata, lápis lazúli e madrepérola. Ur, 2550-2400 a.C. Museu de Arqueologia e Antropologia da Filadélfia.Lira com cabeça de touro em madeira, decorada com ouro, prata, lápis lazúli e madrepérola. Ur, 2550-2400 a.C. Museu de Arqueologia e Antropologia da Filadélfia.

Num contexto geral podemos entender a Antiguidade como um período no qual sobressalta o esforço humano em organizar o mundo e dar-lhe inteligibilidade. Se na Pré-História a música era um gesto simbólico de aproximação com a natureza, agora ela se torna instrumento de ordem, de disciplina e de representação do sagrado e do social. Isto é, a análise dos elementos arqueológicos antigos evidencia uma transição do uso espontâneo e mágico da música para sistemas cada vez mais conscientes de construção e afinação dos instrumentos, do temperamento das escalas, bem como para reflexões filosóficas sobre seus efeitos. É nesse contexto que a música começa a ser escrita, discutida e teorizada, adquirindo autonomia como campo do saber.


Embora nos faltem os sons originais dessas civilizações, é possível abstrair que a música, ao lado da linguagem verbal, consolidou-se como uma das principais formas de expressão e organização do pensamento humano. Se durante a Pré-História vemos a gênese da musicalidade, a Antiguidade revela a sua formalização. Deste modo, podemos concluir que a música existe também como ciência além de arte.


Sob essa conclusão, a Antiguidade não representa apenas uma continuidade, mas uma fase de maturação da música durante a história da vida humana no orbe terrestre. É o momento que vemos o instinto simbólico deixando a crisálida e sendo compartilhado por toda a humanidade, ela passa a configurar-se como linguagem culturalmente construída, capaz de atravessar povos e tempos, deixando marcas profundas na estrutura da civilização.



1 - O sistro é um instrumento de percussão que produz um som achocalhado.

2 - Um aulos ou tíbia ( latim ) era um instrumento de sopro da Grécia antiga , frequentemente retratado na arte e também atestado pela arqueologia.

3 - Címbalos refere-se tanto a instrumentos de percussão de metal, que são dois discos batidos um contra o outro, como a um instrumento de cordas percutidas semelhante a um salto grande, dando origem ao cravo. O plural "címbalos" é mais comum e refere-se aos pratos de metal, como os usados na Bíblia e em práticas de música moderna, ou aos instrumentos de cordas antigos.


Referências Bibliográficas

  • SACHS, Curt. História da Música no Ocidente. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

  • SACHS, Curt. The History of Musical Instruments. New York: W. W. Norton, 1940.

  • WEST, M. L. Ancient Greek Music. Oxford: Clarendon Press, 1992.


Links


O Epitáfio de Seikilos é um artefato grego da Antiguidade, encontrado em um túmulo erguido por Seikilos em memória de sua esposa. Trata-se de uma das mais antigas composições conhecidas registradas em notação musical, preservando não apenas o texto poético, mas também a melodia que o acompanha.

 
 
 

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