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O Barroco: Razão, Fé e Contradição

"A arte é a manifestação sensível do Espírito.” Hegel 

Johann Sebastian Bach aos 61 anos em um retrato de Elias Gottlob Haussmann, em 1746. Bach segura uma cópia do cânone de seis partes BWV 1076.
Johann Sebastian Bach aos 61 anos em um retrato de Elias Gottlob Haussmann, em 1746. Bach segura uma cópia do cânone de seis partes BWV 1076.


O termo Barroco — derivado da expressão portuguesa “pérola imperfeita” — descreve o período artístico iniciado por volta de 1600 e simbolicamente encerrado em 1750, com a morte de Johann Sebastian Bach. Ele expressa uma mentalidade marcada pelos dualismos da época: paganismo e cristianismo, espírito e matéria, fé e razão. Mais do que um período artístico da modernidade, o Barroco refletiu a visão de mundo dos séculos XVII e XVIII, em meio a conflitos religiosos, tensões políticas e descobertas científicas que redefiniam a vida europeia. Como observa Arnold Hauser, “o Barroco não é apenas um estilo, mas uma concepção de vida, uma forma de sentir o mundo em sua tensão e contradição” (História Social da Arte e da Literatura, 1951, p. 389). Nesse contexto, a pintura, a arquitetura, a escultura, a literatura, o teatro e a música tornaram-se instrumentos poderosos de persuasão política e religiosa.


Podemos considerar a Reforma Protestante o fator decisivo para a eclosão do Barroco, pois rompeu com a unidade do cristianismo (que até então vivia sob a autoridade exclusiva da Igreja Católica) e instaurou novas práticas para a arte. Em resposta, a Igreja lançou a Contrarreforma — consolidada pelo Concílio de Trento (1545–1563) — que estabeleceu diretrizes rígidas para a produção artística. A arte passou, assim, a desempenhar as funções catequética e propagandística. Esse fenômeno ocorre particularmente nos países de forte tradição católica, como a Itália e a Espanha. Um exemplo notável desse momento é a pintura de Caravaggio, cuja dramaticidade do claro-escuro, como em A Vocação de São Mateus (1599–1600), traduzia visualmente a mensagem da Igreja.



Em paralelo, transformações econômicas moldaram o período Barroco. A expansão colonial, sustentada pela escravidão e pelo comércio atlântico, somada ao fortalecimento do sistema bancário, trouxe à Europa uma riqueza sem precedentes. Esse novo fluxo de capitais, ao mesmo tempo em que ampliava as desigualdades sociais, também financiava o florescimento das artes. Nesse contexto, dinastias como a dos Habsburgo, tornam-se grandes patrocinadoras de artistas. Eles utilizavam a arte como símbolo de poder e instrumento de afirmação política e religiosa.


Retrato por Hyacinthe Rigaud, 1700–1701
Retrato por Hyacinthe Rigaud, 1700–1701

Na esfera política, os Estados nacionais recém-formados consolidaram-se sob o absolutismo. Nenhuma figura ilustra melhor esse momento do que Luís XIV (1638 - 1715) da França, o chamado Rei-Sol. Sob seu reinado, o Palácio de Versalhes tornou-se não apenas um ícone da ostentação barroca, mas também o centro simbólico do poder monárquico. Mais do que luxo, Versalhes representava o ideal da autoridade real e da organização de uma vida cortesã. Além disso, Luís XIV institucionalizou as artes por meio das academias, estabelecendo normas e técnicas que consolidaram um modelo artístico oficial a serviço das monarquias.


A filosofia traduziu o dualismo considerado inerente à condição humana. Descartes, com seu célebre cogito, ergo sum (“Penso, logo existo”), buscava fundamentos racionais para o conhecimento; Pascal, em seus Pensées, lembrava que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, advertindo sobre a precariedade da razão diante do mistério divino; já Hobbes, em Leviatã (1651), via na autoridade absoluta o único antídoto contra a guerra civil. Esses pensadores não apenas tencionaram fé e razão: eles e muitos outros inauguraram métodos que transformaram a academia e a política modernas.


Na literatura, esse espírito se manifestou especialmente nos poetas e retóricos. Luís de Gôngora levou ao extremo a exuberância formal do culteranismo, enquanto Francisco de Quevedo praticava o desengano crítico do conceptismo. Em Portugal e Brasil, destacaram-se: Padre Antônio Vieira, cuja oratória unia fé e poder; e Gregório de Matos, que oscilava entre a devoção mística e a sátira mordaz da sociedade colonial.


Contrastando com esse utopismo intelectual, a Guerra dos Trinta Anos (1618–1648) devastou a Europa, ceifando milhões de vidas e arruinando regiões inteiras. Iniciada por disputas religiosas entre católicos e protestantes, rapidamente escalou para a política, envolvendo dinastias como os Habsburgo e transformando-se em uma luta pelo equilíbrio de poder na Europa. A brutalidade da guerra deixou marcas profundas no imaginário Barroco, acentuando o sentimento de transitoriedade, de contradição e de desengano. A Paz de Vestfália (1648) encerrou o confronto, pondo fim a possibilidade de reunificação cristã. Desde então vemos uma nova ordem internacional baseada em Estados soberanos. Nasce também a diplomacia moderna — marco decisivo tanto na política quanto na cultura para o Ocidente.


Batalha da Montanha Branca (1620)
Batalha da Montanha Branca (1620)

Retrato equestre do duque de Lerma por Peter Paul Rubens, 1603
Retrato equestre do duque de Lerma por Peter Paul Rubens, 1603

No campo artístico, o Barroco destacou-se pelo excessos. Na pintura, enquanto Caravaggio explorava o chiaroscuro¹ com dramaticidade, enquanto Peter Paul Rubens exaltava a grandiosidade das personalidade em composições monumentais; já Rembrandt nos traz uma dimensão mais introspectiva. Na escultura, Gian Lorenzo Bernini da forma ao movimento como podemos notar no Êxtase de Santa Teresa, obra que parece dissolver a fronteira entre matéria e espírito. A arquitetura barroca, representada por mestres como Francesco Borromini, por exemplo, adota curvas ousadas, colunas retorcidas e efeitos calculados de luz e sombra, transformando templos e palácios em verdadeiras experiências sensoriais. Já o teatro, com autores como Pedro Calderón de La Barca, aprofundava dilemas éticos, dramatizados sob a tensão do efêmero e do transcendente.


Fachada de Igreja de São Carlos das Quatro Fontes por Francesco Borromini, 1638-1641
Fachada de Igreja de São Carlos das Quatro Fontes por Francesco Borromini, 1638-1641

No entanto podemos concluir que foi na música aonde o Barroco alcança a sua forma mais pura. A consolidação do sistema tonal (do qual ainda estamos presos) ofereceu um alicerce firme para uma arte que, paradoxalmente, buscava mais movimento além da tensão e do contraste. O baixo contínuo¹ sustentava as melodias que aparece como alma da música, enquanto a família do violino assumia o papel de voz privilegiada. Das formas instrumentais — suíte, concerto, sonata e proto-sinfonia — brotava uma espécie de nova retórica dos sons, na qual a razão se punha a serviço da emoção. Como observou o musicólogo Manfred Bukofzer, “a música barroca é a dramatização dos afetos”. Isto é, a tentativa consciente de traduzir em sons aquilo que o coração sente e a palavra não alcança. Em resumo, podemos considerar que a música barroca não apenas decodificava a vida de seu tempo: ela a interpreta com maestria.


É importante destacar que as academias de música, fundadas em sua maioria entre os séculos XVII e XVIII, reforçaram o status intelectual do artista, afastando-o em definitivo da condição de artesão, o aproximando do filósofo ou de alguém que também reflete a sociedade. Essa nova posição vinha na esteira da tradição das universidades e colleges renascentistas, onde a música ainda fazia parte do quadrivium³. Do mesmo modo, a herança da escola franco-flamenca — com mestres já mencionados anteriormente como Josquin des Prez, Orlando di Lasso e Adrian Willaert — preparou o terreno para a polifonia que obteve seu apogeu nas peças instrumentais do barroco. As capelas e catedrais também exerceram papel central neste cenário. Funcionavam como verdadeiros centros de ensino de música: a Capela Sistina em Roma, a Catedral de Sevilha na Espanha ou as grandes Sé de Portugal eram espaços de formação prática e teórica da música.


 Capela Sistina em Roma
 Capela Sistina em Roma

A música foi entendida como a única linguagem capaz de expressar, ao mesmo tempo, os limites da razão e os anseios pelo transcendente. Nomes como: Heinrich Schütz que levou a polifonia a um patamar mais eloquente; Arcangelo Corelli que consolidou a sonata e o concerto grosso como formas musicais, estabelecendo modelos instrumentais que influenciariam a música de maneira decisiva; Antonio Vivaldi que, com As Quatro Estações (1725), transforma a natureza em música, a pintando com notas e ritmos. No ápice desse percurso vemos Johann Sebastian Bach e George Frideric Handel revelando a face mais grandiosa do Barroco: Bach, com obras como a Paixão segundo São Mateus (1727) e O Cravo Bem Temperado (1722–1742), demonstrando o equilíbrio entre a racionalidade e a emoção numa arquitetura sonora quase perfeita; e Handel, com o oratório Messiah (1741), traduzindo a busca fé pela razão em um espetáculo de louvor e devoção que é grande sucesso até hoje.


No mundo ibérico, o Barroco ganhou cores próprias. Domenico Scarlatti, radicado em Portugal e Espanha, escreveu mais de 500 sonatas para cravo. Em Portugal, Carlos Seixas destacou-se como herdeiro desse gênero musical, mesclando a sobriedade lusa ao virtuosismo italiano. Já no Brasil, a música barroca floresceu em Mina Gerais. Mestres como Lobo de Mesquita, Francisco Gomes da Rocha e Manuel Dias de Oliveira deram voz a uma música, que apesar do rigor europeu, se misturava à nossa cultura. Em suas missas e motetos, percebe-se o mesmo impulso que guiava Bach ou Vivaldi apesar da fragilidade de seus conhecimentos técnicos.


Johann Sebastian Bach


O auge da música barroca encontra-se na obra de Johann Sebastian Bach, muitas vezes chamado de “o quinto evangelista” (segundo a célebre expressão de Albert Schweitzer). Sua criação sintetizou fé, técnica e sensibilidade musical em uma obra incomparável para a história humana. Para Bach, a música era “um exercício de devoção” e a mais pura forma de conhecimento. Ela é capaz de traduzir a ordem divina ao mesmo tempo que interpreta a miséria da condição humana. Obras como a Paixão segundo São Mateus (1727) ou a Missa em Si menor (1749) são verdadeiras catedrais sonoras, nas quais o contraponto não é apenas técnica, mas um tratado de teologia expresso em música. Em seus corais, o povo luterano encontrava conforto espiritual. Bach consegue, de certa forma, refletir com precisão a ideia de Lutero de que “a música é o maior dom de Deus depois da teologia”. Em suma, a sua arte ecoa a experiência dos primeiros apóstolos. Isto é, uma busca incessante pelo contato com Deus além do servir a Cristo. Cada nota é uma oração ou uma revelação.


Bach foi um devoto de primeira ordem. Deu sua vida para a música. Admirá-lo não é somente observar um período da história da arte. É voltar a mente para algo que está acima de nossas capacidades cognitivas. Para concluir, podemos observar um pouco de quem ele foi pelo trecho que extraio do livro Bach, sua vida e o cravo bem temperado, de José da Silva Martins.


". . . Com a aproximação da velhice, a vista de Bach começa a falhar.


Visitava Leipzig o Dr. Taylor, cirurgião inglês, especialista em oftalmologia. Aconselha Bach a submeter-se a uma operação que lhe melhoraria a visão. Mas o resultado é negativo, e o pouco que enxergava apaga-se totalmente. Magdalena descreve-nos numa triste página este episódio.


'Oh! Meu Deus, ainda sinto a angústia desse momento! Todavia, quando chegou a hora de lhe revelar o efeito da operação e a sua total cegueira, Sebastian demonstrou extraordinária paciência. Longe de permanecer tão calma como ele, eu chorava ao lado do seu leito. Meu marido pôs a mão na minha cabeça e disse-me: 'Devemos ficar contentes por sofrer um pouco; isso nos aproxima de Nosso Senhor, que tanto sofreu por nós'. Pediu-me depois para ler um livro de Tauler, célebre pregador, o segundo sermão de Epifania, em que havia uma passagem de que se lembrava, e a qual desejava ouvir para consolação dos ouvidos da sua alma, já que não a podia ler para a alegria dos seus olhos. 'Se os olhos da minha cabeça me são arrebatados, é porque Deus, Nosso Senhor e Pai celeste, assim o quis por toda a eternidade, e se eles agora me são tirados, e se me torno cego e surdo, é porque assim quis Nosso Pai e Senhor. Não devo então abrir meus olhos e meus ouvidos e agradecer a Deus, que a Sua santa vontade seja cumprida em mim? Por que hei de ficar triste por isso? Assim, perder a vista, a audição, os amigos, a fortuna e tudo aquilo que Deus nos deu de partilha; tudo deve servir para nos preparar e ajudar na espera da verdadeira paz'. Foi, pois, bruscamente", termina Magdalena, "que tive consciência de que a maior esperança de meu marido era morrer."


Esses meses que antecedem a morte são de agonia para Magdalena, mas em sua abnegação, redobra seu afeto, seu carinho para com o marido. Muitas vezes põe-se ao cravo tocando e cantando para iluminar o mundo das trevas em que o amado marido está mergulhado - trevas do corpo, porque há clarões de alegria nos olhos da alma de Bach, por ver tão próxima a sua libertação da prisão da Terra para o paraíso do céu, a que desde a adolescência sempre aspirou.


Entre o apagar da sua vida e a sua morte, ainda pôde conceber uma obra genial: a Arte da Fuga. Sentando-se ao cravo, vai dedilhando as notas, as teclas que tão bem estavam impressas na sua memória, e toca pela primeira vez a Arte da Fuga, que Magdalena vai passando para o pentagrama.


Bach morre numa terça feira, a 28 de julho de 1750, às oito horas e um quarto da noite."



1 - Chiaroscuro é uma técnica artística de contraste entre luz e sombra, vinda do italiano "claro-escuro".

2 - O baixo contínuo é uma prática de acompanhamento musical, predominante no período Barroco (séculos XVII e XVIII), em que um instrumento grave (como o violoncelo, viola da gamba ou fagote) toca uma linha de notas graves, enquanto um instrumento de harmonia (como o cravo, órgão ou alaúde) improvisa acordes. Ele se guia pelas cifras, um tipo de notação musical.

3 - Na Idade Média, quadrivium era o conjunto dos quatro ramos do saber: aritmética, geometria, música e astronomia, orientados pela matemática, que compunham, com o trivium, as sete artes liberais ministradas nas universidades.


Principais compositores



Referências Bibliográficas


  • HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. Trad. de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

  • ESCARTES, René. Meditações Metafísicas. Trad. de J. Guinsburg. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção Os Pensadores).

  • PASCAL, Blaise. Pensamentos. Trad. de Sérgio Milliet. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção Os Pensadores).

  • HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Abril Cultural, 1974. (Coleção Os Pensadores).

  • GÔNGORA, Luís de. Soledades. Madrid: Cátedra, 1994.

  • QUEVEDO, Francisco de. Los Sueños. Madrid: Cátedra, 1991.

  • VIEIRA, Antônio. Sermões. Organização de Alcir Pécora. São Paulo: Hedra, 2003.

  • MATOS, Gregório de. Obra Poética. Organização de James Amado. Rio de Janeiro: Record, 1990.

  • BACH, Johann Sebastian. Paixão Segundo São Mateus. 1727.

  • BACH, Johann Sebastian. Missa em Si menor. 1749.

  • BACH, Johann Sebastian. O Cravo Bem Temperado. 1722–1742.

  • BUKOFZER, Manfred F. Music in the Baroque Era: From Monteverdi to Bach. New York: W. W. Norton, 1947.

  • MARTINS, José da Silva. Bach: sua vida e o Cravo Bem Temperado. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985.




 
 
 

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